Uma história de sacanagem

Julho 7, 2009

O cinema em que Trout estava sentado com todos os seus embrulhos no colo só exibia filmes de sacanagem. A música era tranquilizadora. Espectros de um homem e de uma mulher jovens chupavam inocentemente os buracos macios um do outro na tela.

E Trout inventou um novo romance enquanto estava sentado ali. Era sobre um astronauta terráqueo que chegava a um planeta onde toda a vida aninal e vegetal havia sido exterminada pela poluição, exeto pelos humanóides. Os humanóides se alimentavem de comida feita de petróleo e carvão.

Eles fizeram um banquete para o astronauta, que se chamava Don. A comida era terrível. O grande tema da conversa era censura. As cidades estavam repletas de salas de cinema que só exibiam filmes de sacanagem.
Os humanóides gostariam de poder fechá-las de algum modo, mas sem interferir na liberdade de expressão.

Perguntaram a Don se os filmes de sacanagem eram um problema na Terra também, e Don respondeu:
- Sim.
Perguntaram se os filmes tinham muita sacanagem, e Don respondeu:
- Toda sacanagem possível num filme.

Isso foi um desafio para os humanóides, que tinham certeza que seus filmes de sacanagem podiam superar qualquer um feito na Terra. Assim, todos se amontoaram em veículos infláveis e flutuaram até um cinema de filmes de sacanagem no centro da cidade.
Como estava na hora do intervalo quando eles chegaram, Don teve algum tempo para pensar no que poderia ser mais cheio de sacanagem do que o que ele já tinha visto na Terra. Ficou sexualmente excitado antes mesmo de as luzes se apagarem. As mulheres de seu grupo estavam todas falantes e agitadas.

Então a sala ficou escura, e as cortinas se abriram. No começo, não havia nenhuma imagem. Saíram barulhos de chupões e gemidos nos alto-falantes. Depois, a imagem apareceu. Era um filme de alta qualidade de um humanóide macho comento o que parecia uma pêra. A câmera fez um zoom em seus lábios, e língua, e dentes, que cintilavam com a saliva. Ele levou um bom tempo comendo a pêra. Qualdo o último pedaço desapareceu de sua mão babada, a câmera focou em seu pomo-de-adão. Seu pomo-de-adão se mexia obscenamente. Ele arrotou com satisfação, e a seguinte palavra surgiu na tela, mas na língua do planeta.

FIM

Então começou o filme principal. Era sobre um macho e uma fêmea, seus dois filhos e o cão e o gato deles. Todos comeram continuamente por uma hora e meia – sopa, carne, biscoitos, manteiga, legumes, purê de batata com molho de carne, frutas, doces, bolos, tortas. A câmera raramente se afastava mais do que trinta centímetros dos seus lábios brilhantes e seus pomos-de-adão em movimento. E então o pai pôs o cão e o gato sobre a mesa, para que eles podessem participar da orgia também.

Depois de um tempo, os atores não conseguiam mais comer. Estavam tão empanturrados que estavam com os olhos arregalados. Mal conseguiam se mexer.
Disseram que não sabiam se conseguiriam comer novamente em menos de uma semana, e assim por diante. Limparam a mesa devagar. Caminharam pesadamente até a cozinha e jogaram mais ou menos quinze quilos de sobras numa lata de lixo.
A platéia foi ao delírio.

Quando Don e seus amigos saíram do cinema, foram abordados por putas humanóides que lhes ofereceram ovos, laranjas, leite, manteiga, amendoíns e assim por diante. Na verdade, é claro que as putas não podiam lhes dar essas iguarias.
Os humanóides disseram a Don que se ele fosse embora com uma puta, ela lhe faria uma refeição de produtos de petróleo e carvão a preços exagerados.
E então, enquanto ele estivesse comendo aquilo, ela diria sacanagens sobre com a comida era fresca e suculenta, embora fosse uma comida falsa.

(Café-da-manhã dos Campeões – Kurt Vonnegut)

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